Viagem à província de São Paulo

Auguste de Saint-Hilarie

A montanha do Jaraguá propriamente dita e os morros vizinhos podem, segundo penso, ser considerados como formando a extremidade meridional da longa cadeia denominada serra da Mantiqueira ( 299 ). O principal pico tem tão pouca elevação, que na região outro nome não tem senão o de '' morro do Jaraguá''. Entretanto, essas pequenas montanhas tem, na história do Brasil, alguma celebridade, porque encerram minas de ouro cuja exploração remota a uma época extremamente remota. A descoberta das mesmas ocorreu, pelo que se diz, em 1590, e foi devida a um português chamado Afonso Sardinha, o qual, no mesmo ano, reconheceu a existência de ferro na montanha de Arrasoiaba (300). Durante todo o XVIII século, foram extraídas consideráveis quantidades de ouro das minas do Jaraguá, as quais foram denominadas, ao que se afirma, o Peru do Brasil. Essas minas ainda eram exploradas quando o viajante inglês Mawe as visitou pelo começo do ano de 1808, e, conquanto, em 1839, Kidder ali não visse nenhum trabalhador, não é de crer que nessa época estivessem as mesmas inteiramente abandonadas (301).
As minas do Jaraguá e o pico do mesmo nome pertencem a uma importante fazenda, de propriedade, pelo começo do século, do governador da província, Antônio José da Franca e Horta que ali introduziu alguns melhoramentos( 302). Em 1839, estava a mesma fazenda em mãos de uma viúva de nome dona Gertrudes, que a explorava com grande inteligência, tendo acolhido, da forma mais delicada, o viajante anglo- americano Kidder ( 303), bem como o naturalista francês Guillemin (304) e Houlet, subchefe das estufas do Museu de Paris.
A medida que a gente se afasta do pico do Jaraguá e do Capão de Pombas, o terreno torna-se menos desigual, acabando por construir uma planície ondulada, limitada, so norte, pelas montanhas recém transpostas. Essa planície apresenta pequenos capões de mato, pouco elevados, de considerável extensão, muito próximos uns dos outros, em alguns pontos contíguos, e disseminados em meio de tabuleiros de relva muito rente ao solo. É difícil determinar se existem mais terras cobertas de matos do que de pastos, ou se a quantidade destes excede aquelas. É uma espécie de mosaico de duas cores verdes bem diferentes e bem talhadas — a relva de um verde suave e os matos de um verde carregado. Tais são os campos aprazíveis que os primeiros habitantes da região designaram, com os indígenas, pelo nome de Piratininga, e que aqueles denominaram, também, '' paraíso terrestre ou campos elíseos ''.O nome Piratininga caiu em desuso, mas os campos que o tiveram nada perderam de sua beleza, e são hoje animados pela presença de grande número de muares, de cavalos e de bois, que nos mesmos pastam, por todos os lados, dentro de uma espécie de grandes parques cercados por fossos (valos) profundos. Se todos os testemunhos históricos não se reunissem no sentido de descrever a vegetação dessa planície, na época da descoberta, tal como é atualmente , eu acreditaria, confesso, com nos elementos fornecidos pela minha experiência, que a mesma era, antigamente, coberta de matas. A possibilidade de cometer semelhante erro prova o quanto é essencial averiguar, como sempre fiz, a natureza da primitiva vegetação, nos lugares onde as mesmas ainda não foi destruída. Seja como for, se em seu aspecto geral a vegetação dos campos de Piratininga não sofreu alteração muito sensível desde os tempos de descobrimento, o observador atento conceberá, ao primeiro olhar, que uma real diferença ali deve ter ocorrido com a sucessão dos anos. A relva rasteira hoje observada nesses campos não poderia Ter pertencido á primitiva vegetação; é a mesma, certamente, resultante da contínua presença de muares e cavalos, e pode-se afirmar, creio, sem temor de um equívoco, que antes da chegada dos portugueses, ervas mais altas cresciam ali, entre os capões de mato. A província de Minas apresenta, de acordo com a elevação de suas diversas regiões e com o afastamento das mesmas da linha equinocial, diferenças de vegetação assaz numerosas e, freqüentemente, muito bem marcados; não me recordo, porém, de ter visto nenhuma região de Minas que, quanto ao aspecto, possa ser exatamente comparada com a planície de Piratininga.
A cerca de uma légua da cidade de São Paulo, atravessa-se, por uma ponte de madeira ( 1819), o rio Tietê, que, nesse ponte tem largura pouco considerável, mas cujas águas correm com bastante rapidez. Muito próxima de suas margens existia, ao tempo de minha viagem, uma linda casa de campo, sombreada por uma araucária, e, junto da referida casa, viam-se plantações de café dispostas em linhas cruzadas. Desde que eu deixara a chácara do vigário de Santa Luzia,, em Goiás isto é, desde o começo de junho, e estávamos em fins de outubro, não mais vira uma casa de campo. Tal encontro, anunciativo do homem trabalhador, não poderia deixar de encantar o viajante, cujos olhos mantiveram-se entristecidos durante vários meses, pelo aspecto dos desertos, da indolência e da pobreza.
Cumpre-me fornecer alguns detalhes sobre o Tietê, rio de que acima falei e que goza de grande celebridade na história da província de São Paulo. Originariamente, foi ele chamado rio Grande e Anhambi; mais recentemente, porém, esses nomes foram trocados pela denominação Tietê, composta de dois vocábulos guaranis- ti (água) e etê (boa, verdadeira) água boa. O Tietê nasce dessas de 20 léguas de São Paulo, entre a serra do Mar e a serra da Mantiqueira corre o primeiro para oeste, quase paralelamente á primeira dessas cadeias, que o repele; dirigi-se, depois para noroeste. Recebe as águas de um grande número de afluentes, descreve mil sinuosidades, seu curso é acidentado por longa série de corredeiras e cachoeiras e, depois de percorrer 180 a 200 léguas, aproximadamente, deságua na Paraná, o qual, reunindo ao Uruguai e ao Paraguai, forma o rio de Prata. Assim, como observa Friedrich Varnhagen, o Tietê, que nasce a 8 ou 10 léguas do oceano, faz quase um milhar de léguas para ali desaguar, ao passo que o Paraíba chega ao oceano depois de um curso de cerca de 200 léguas, apenas, e, como ao princípio dos respectivos cursos ambos quase se encontram no lugar chamado Nossa Senhora da Escada, a 2.000pés ingleses acima do nível domar- pouco mais de 200 metros - , é claro que o primeiro deve terem em seu conjunto, muito menos rapidez que o segundo. Várias aldeias tinham-se formado outrora ás margens do Tietê, mas das mesmas não existe, atualmente, o menor vestígio, e os indígenas, que nelas habitavam. Ou morreram, ou foram dispersados. A de Arariguaba existe ainda, é fato, mas tem hoje o nome de Porto Feliz, tornando-se uma pequena vila, habitada unicamente por descendentes dos portugueses. Nessa localidade embarcavam os paulistas, que, afrontando mil perigos, desciam o Tietê até o Paraná, de onde, sempre por via fluvial, chegavam a Cuiabá, em busca de ouro. Á proporção que o viajante se afasta do Tietê e se aproxima se São Paulo, há maior número de casas, mas não em grande quantidade(1819), A cerca de meia légua da cidade encontra-se um rancho real o de Água Branca, - extraordinariamente cômodo para os viajantes, que, em São Paulo, tanta dificuldade tem em encontrar alojamento, quanto nas outras povoações do interior do Brasil.


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