Sisudez paulista

A sisudez atribuída aos paulistas pelos demais brasileiros seria uma herança dos padres jesuítas que fundaram São Paulo? O escritor português, radicado no Brasil, Augusto Emílio Zaluar achava que sim. Morador no Rio de Janeiro, em 1860, ele veio a São Paulo e , no livro Peregrinação Pela Província de São Paulo, descreveu a cidade que encontrou com 46.000 habitantes, como "triste, monótona, desanimada". Ele formara tal idéia da cidade "apesar da majestosa natureza que a circunda, da suave elevação em que se acha colocada e do ameno clima que a bafeja..."
Quebravam um pouco, o clima desolador, a descontração dos estudantes da Faculdade de Direito, quase todos eles de outras partes do Brasil: "Quando os estudantes da Faculdade de Direito vão às férias, então é que se reconhece melhor o que acabamos de dizer e tivemos ocasião de verificar. A mocidade acadêmica imprime à povoação, durante sua residência nela, uma espécie de vida fictícia que, apenas interrompida, a faz recair, por dizer, no seu estado habitatual de sonolência".
Diante disso, afirmou:" A antiga cidade dos jesuístas deve ser considerada, pois, debaixo de dois pontos de vistas diversos. A capital da província e a Faculdade de Direito, o burguês e o estudante, a sombra e a luz, o estacionarimo e a ação, a desconfiança de uns e a expansão muitas vezes libertina de outros, e para concluir, uma certa monotonia de rotina personificada na população permanente, e as audaciosas tentativas do progresso encarnadas na população transitória e flutuante".
Não obstante, a sua propalada intenção de concluir, ele ainda falou mais: "...a cidade de São Paulo é monótona, e nos seus dias de festa, em vez do riso jovial e franco, é taciturna e reservada, como uma beata que vai à missa das almas com o rosto escondido na mantilha e as contas do rosário a aparecerem por baixo das rendas de um mantelete de seda."
Mesmo na suas ressalvas, Zaluar dava uma no prego, outra na ferradura: "Se bem que o caráter dos paulistas seja desconfiado, e algumas vezes a pouco sociável, convém dizer que as exceções são tanto mais agradáveis quanto, por um contraste que não é raro encontrar nos estudos de fisiologia social, estas primam pelo excesso de uma requintada amabilidade".
E dava as razões pela aridez que, segundo ele, caracterizava São Paulo: "É que o antigo Colégio da Companhia de Jesus, destinado à conversão dos Índios, é que a povoação rival da vila de Santo André, a quem destruiu e aniquilou, conserva ainda hoje, em seus habitantes, em seus costumes e suas usanças, alguns traços tradicionais, esse cunho de misteriosa concentração que os jesuítas sabiam imprimir por toda a parte, não só ao povo, como aos edifícios, e, o que ainda é mais, à natureza e ao próprio ambiente que o rodeava".



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