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Sobradões e arranha-ceús

São Paulo era uma cidade onde predominava um casario pouco vistoso até os meados do séculos passado. Tinha um aspecto monótono, quase desanimador, na descrição de alguns viajantes estrangeiros. Em 1870, estava em 10º lugar entre as capitais brasileiras, atrás de Cuiabá, S. Luís e Niterói. Então, a riqueza do café derramou-se sobre a cidade, fertilizando o solo para o florescimento de construções mais imponentes.

20 metros de altura

Construir um prédio mais alto do que um rival sempre constituiu na cidade, uma questão de honra para os endinheirados. Em certa ocasião, um comerciante viu uma construção ser iniciada no terreno do vizinho e comentou com ele.
— Está fazendo o seu sobradão?
— Estou sim. Isto é para quem tem ânimo — respondeu-lhe o vizinho.
— Ah! é para quem tem ânimo...pois vais ver um outro de três andares — retrucou o outro e imediatamente vieram as providências para a construção. A imigração italiana encarregou-se de dar novas feições à cidade, dotando-lhe de certo ar europeu, não só através das construções feitas sob encomenda dos imigrantes enriquecidos, mas também com a contribuição de construtores mais especializados. Empreiteiros e arquitetos italianos deixaram de lado o velho estilo brasileiro para colocar em seu lugar as construções mais nos moldes do néo-clássico. Em 1909, o engenheiro F. Notaroberto ergueu na rua Direita, esquina com a rua de S. Bento, o primeiro prédio inteiramente de cimento armado de S.Paulo. Tinha 20 metros de altura.

Arranha-céus de dez andares

No final da primeira década deste século, os prédios de nove ou dez andares, se não chegavam a serem comuns, também já não causavam tanto espanto. Foi aí que o italiano José Martinelli, empreiteiro de obras bem sucedido resolveu dar um tipo de xeque-mate. Ele anunciou a construção de um prédio de 25 andares e cem metros de altura, um estonteante desafio, considerando que aqueles edifícios de nove ou dez andares, já eram chamados de arranha-céus.
O local escolhido para a construção já abrigara outra construção famosa em sua época, sede de um conceituado hotel e de um tradicional café, o Brandão, célebre como ponto boêmio. Para a empreitada, José Martinelli organizou uma empresa sólida. Na ocasião, porém, a técnica da construção em cimento ainda era pouco conhecida. Outros problemas surgiram. Ao serem abertas as fundações descobriu-se um rio subterrâneo. As soluções pareceram difíceis e caras, a firma abriu falência.

Símbolo e orgulho

Pela primeira vez no mundo tentava-se construir um prédio de cimento armado em tais dimensões. Já existiam prédios bem mais altos, porém, feitos com estruturas de aço. Os defensores do concreto não desanimaram, todavia, e foram para a batalha. Reapareceram os recursos.

Em 1928, o Edifício Martinelli foi concluído, sob a direção do engenheiro Ítalo Martinelli, sobrinho do construtor. Não era sem tempo. Demorasse mais um ano e o projeto teria fracassado. Eclodira a crise do café levando de roldão o dinheiro de muitos milionários e a solidez das mais conceituadas firmas.
O Martinelli virou símbolo e orgulho de São Paulo. Nele se instalou um cinema famoso, o Rosário, inaugurado pelo duque de Windsor, que na ocasião, em 1929, visitava a cidade. Teve também o seu lado sombrio. Foi palco de alguns crimes misteriosos. Hoje é só decadência.

Fim da crise do café , fim da crise de cacife

Com o fim da crise do café, o Banco do Estado de S.Paulo, o Banespa, decidiu construir para a sua sede um prédio perto do Martinelli e mais alto do que ele. Dez anos depois de sua inauguração, o Martinelli perdeu sua liderança. Na mesma época anunciou-se que, nas suas proximidades seria construído um outro prédio de sua altura para a sede do Banco do Brasil. Como nos altos do novo edifício do Banespa implantara-se uma torre, os três prédios próximos formariam um conjunto harmonioso: Martinelli de um lado, Banco do Brasil do outro, ao fundo a sede do Banespa. Assim pensou o prefeito da época, Prestes Maia, ao aprovar a planta do edifício do Banco Brasil.

O pé direito mais alto

Só que as coisas correram diferente. De repente, as construção do Banco do Brasil já ultrapassava em altura o Martinelli. Os dois últimos andares foram embargados. Os construtores defenderam-se dizendo o número dos andares correspondia ao previsto pela planta aprovada. Era verdade. Havia, porém, um detalhe. O pé direito de cada pavimento fôra aumentado o que daria uma vantagem de altura no fim da obra. Houve pressão federal e o prédio terminou ganhando os metros a mais.


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