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Faça-se o vinho

Por todos os arredores de São Paulo, nos inícios dos seus dias, floresciam vinhedos. E produziam-se bons vinhos, segundo testemunho insuspeito de José de Anchieta, havendo mesmo a peroleira, um vaso de barro afunilado especialmente destinado a guardar vinhos e azeites.
Um dia, porém, os vinhedos e os vinhos paulistanos desapareceram completamente para só ressurgirem séculos depois.

Bastarda

Por volta de 1865,o húngaro Hugo Thermacis tentou retomar o cultivo de uvas em São Paulo, de acordo com um relatório governamental de 1872. Hugo, homem já idoso, sem grandes conhecimento do clima e formações geológicas da cidade, fracassou, ao fazer experiências de plantios com as duas únicas espécies de uvas existentes na cidade, Moscatel e Bastarda, trazidas de Portugal.

Isabela

Algum anos depois, vulgarizou-se o plantio da uva Isabela, mas ninguém em São Paulo pensou em fabricar vinho até que o paulistano José Xavier Pinheiro fizesse uma esperiência e plantio de vinhedos em Moji das Cruzes. Com os bons resultados alcançados, José Xavier Pinheiro voltou para São Paulo e na Chácara Água Branca, dentro de Pinheiros, montou uma fábrica de vinhos.
O trabalho de José Xavier Pinheiro chamou a atenção de outros paulistanos para os lucros oferecidos pela produção de vinhos. Um desses paulistanos foi o Sr. Joaquim Marcelino da Silva.

Senso

Graças ao seu senso de oportunidade para os negócios novos que o desenvolvimento de São Paulo trazia, Joaquim Marcelino da Silva passou de simples alugador de cavalos para o restrito grupo de "capitalistas" paulistanos de século XIX — possuidores de capital acima de 15 mil contos de réis. Antes de tornar-se fabricante de vinho, ele se especializara nos transportes fúnebres, surgidos com a inauguração em 1858 da cemitério da Consolação — muito distante das áreas povoadas.

Trabalho fúnebre

Com a abertura do cemitério da Consolação, proibiram-se os enterros em outros locais como os terrenos adjacentes às igrejas, hábito até então. Joaquim Marcelino da Silva, estabelecido em 1857 com o negócios de carruagens no largo da Sé, logo conseguiu da Câmara a concessão exclusiva ("privilégio") para o transporte fúnebre, durante 15 anos.

Monopólio

A designação oficial de sua função era de causar arrepios, "empresário de transporte de cadáveres". Contudo, e embora seu monopólio fosse às vezes arranhado por outros donos de cocheira, Joaquim Marcelino deve ter ganho muito dinheiro. Sua cocheira, transferida para a rua do Carmo com o nome de Cocheira Califórnia, deu-se ao luxo de restringir-se ao aluguel só carros, dispensando o aluguel com cavalos. E Joaquim Marcelino diversificou seus negócios, com a plantação de uvas e a fabricação de vinhos numa sua propriedade junto ao rio Aricanduva, Penha.

Concentração

Na mesma época, o futuro bairro da Penha concentrava uma grande produção de vinho. Além de Joaquim Marcelino da Silva, ali estava estabelecida a fábrica do dr. João da Silva Carrão, o Conselheiro Carrão, jornalista, professor de Direito, ex-deputado, ex-senador , ex-presidente da Província e o alemão João Bresser, com chácara no lugar chamado de Marco de Meia Légua.

Fazenda

Da fazenda Morumbi, vinha a contribuição do seu dono, o também vinicultor Antonio da Rocha Leão. E o Brás tinha a Quinta Vinha, do cel. Ignácio José de Araújo, proprietário de uma grande chácara com plantação de uvas, na avenida Rangel Pestana, esquina com o Largo da Concórdia.

Carroça

No bairro do Pari, fabricou vinho o dentista Horácio Tower Fogg, igualmente um teórico da atividade com importante artigo publicado no jornal Correio Paulistano em 1877. Outros pioneiros da indústria vinícola paulistana foram João Bohemer, e o médico da Beneficência Portuguesa, dr. Theodoro Reichert, com fábrica no Barro Branco. Nenhum deles, entretanto, parece ter tido a sorte de Joaquim Marcelino da Silva. Nos seus anúncios, ele publicava um lembrete: "tem carroça na rua". Será que não seria o mesmo veículo usado na sua outra atividade, o de "empresário de transporte de cadáveres"?


VOLTA - SÃO PAULO ANTIGO

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