Vou relembrar aqui, pouco a pouco, algumas passagens do passado da minha terra natal, Eldorado (que se chamava Xiririca, quando nasci). Trata-se de um passado que, na minha idade, posso chamar de recente. Para muitos, porém, deve ter o sabor de um passado longínquo.
Valter Barbosa
FESTA DO DIVINO ESPIRITO SANTO
E DA SS TRINDADE
Por meio de sorteio, escolhia-se o festeiro. Este com seus familiares procuravam a ajuda da comunidade.
Organizavam-se quatro bandeiras. Cada uma delas tinha uma "tripulação" de 5 pessoas: o folião que cantava e tocava viola, o tocador de rabeca, o alferes, que carregava a bandeira e era o encarregado de receber as esmolas ou as prendas (mercadorias como arroz feijão, animais (cavalos ,bois), galinhas, ovos etc... Cabia a este anotar o nome do doador, e a quantia ou a prenda doada. Completavam a equipe dois meninos: um batia a caixa, outro tocava um triângulo. Essas bandeiras saiam mais ou menos um mês antes da festa que se realizava a 20 de julho. Quando chegava o dia da festa, a bandeira já tinha percorrido todo o município.
Em 1960, coube à nossa família fazer a festa do Divino Espírito Santo e a da SS Trindade. Foi um acontecimento muito bonito, todo o mundo ajudou. Lá estavam José Maria, Dorival Peluso, tio Ildefonso e tia Pilar com seus filhos, tia Ginoca e tio Paulo, tio Vitorino e tia Francisca, Maria José, tia Caetana e tio Alceu, tia Justina, tio João e tia Francisca, Francisco e Evangelina.
Muitos amigos: dona Áurea, José Ribeiro, Silvério Pupo, dona Isolina, dona.Maria Relva, sr.Augusto Relva, dona Aparecida, sr.Benedito Cardim, Anita e Oliveira, Antonio Inácio, Teófilo e Conceição, Job com Lavina, dona Balbina, Lindolfo e Lauro.
O Padre Pedrão que era amigo de todo o mundo.
Dr, Jaques, médico de Eldorado.
A banda de Eldorado colaborou, animando muito a festa. Plínio Bastos (maestro), Edgar Carneiro, Júlio de Almeida, José Lopes ,tio Ildefonso, José Macário, Zico Franco, José Mulatinho, João Passos, Ângelo Muniz, Crisnauro, Branco Ribeiro, Dorival Peluso, Régis.
A festa foi muito bonita, representada por Ruy e Wanda.
1946
Nesse ano, fui trabalhar na roça.
Primeiro roçava o mato, depois queimava para então plantar o arroz, milho, feijão, cana, mandioca, café.
Arroz era o principal, mas também o que dava mais trabalho.
Capinava-se ou queimava-se o mato. O plantio era feito com uma máquina manual ou com pau que nós chamávamos de saracoa.
Uma pessoa ia na frente lançando as sementes nos buracos previamente preparados, outra seguia atrás com um pau chamado soquete, cobrindo os buracos para os passarinhos não comerem as sementes; Depois de um mês, era necessário capinar o mato, até duas ou três vezes.
Assim, quando começava a colheita a roça estava limpa para o corte do arroz.
Para o processo de corte, fazia-se uma barraca de lona para bater o arroz.
No sítio, tínhamos um pilão de madeira de lei feito por um marceneiro para beneficiar o arroz.
1948
Mudei de profissão, comecei a trabalhar na moenda. Moía cana para fabricar pinga.
A moenda era movida a cavalo. Punha-se a coalheira (um tipo de almofada de couro amarrada no peito do cavalo), engatava-se uma corrente que saia da coalheira e ia até a manjarra, um pedaço de pau grosso que fazia girar uma palheta conectada ao eixo central da moenda. Assim, moía-se a cana conforme o cavalo ia andando. O líquido extraído (garapa) escorria, indo para dentro do cocho.
PROCESSO DE FABRICAÇÃO DA PINGA
Transportava-se a garapa para um outro cocho onde tinha fubá de milho que a fermentava. Vinte quatro horas depois, iniciava-se a fermentação, sinal de que tudo estava pronto para o alambique. Neste, acendia-se a lenha e se iniciava a fervura da garapa. Duas horas depois, o vapor emitido, ao passar pela serpentina de água corrente, transformava-se em pinga.
ESTRADA
Em 1950, o prefeito de Eldorado era João Cláudio Ferreira, vulgo João Brasileiro.
Naquele ano, ele deu a partida da construção de uma estrada que se iniciava no sítio de Ernesto Cabral, onde uma balsa transportou para a outra margem o trator de esteira que cortava o barro e derrubava as árvores.
Quando se chegava a um ribeirão,era necessário construir uma ponte de madeira para atravessar o trator. Ao alcançar o bairro do Abobral (onde morávamos), o engenheiro colocou a marca de 7 quilômetros.A estrada chegou ao bairro de Primeira Ilha, na altura do quilometro 30, divisa dos municípios de Eldorado e Sete Barras.
Em 1952, José Mulatinho, dirigindo um jipe, levou Dr, Floriano,dono do Abobral, à minha casa. Quando o tempo estava seco, os carros pequenos passavam.Em caso de chuva,o trânsito tornava-se impossível para qualquer tipo de carro.
Em 1960, o dr. Paiva ,então chefe político da cidade, conseguiu junto ao governo, verba para a construção da ponte sobre o Rio Ribeira, que divide Eldorado e Sete Barras. Com a construção da ponte melhorou muito o transporte de alimentos: banana, arroz, feijão, milho e a pecuária.
Havia uma linha de ônibus para o transporte de passageiros e outra para servir ao alunos do Ginásio.A ponte foi um grande avanço, pois antes o transporte era feito por canoa ou em tropas de burros.
1960
Fomos, eu e meus irmão, Rui, Benedito e José, trabalhar no Taquari, sítio do sr. Roderico Melo. Era 1960 e coube-nos a tarefa de plantar banana e arroz. Terra boa, plantamos 30 mil pés de banana e arroz. Só este último, rendeu 2.000 sacos.
Conosco, trabalhavam cerca de 30 pessoas. Cortávamos o arroz, quando maduro, na roça, e levávamos para bater dentro de uma barraca de lona. Uma turma cortava, outra carregava, e uma terceira ia batendo na banca também coberta de lona. No final do dia, ensacava-se tudo, ainda em sacos de lona.
De dois em dois dias, Oscar Lepe chegava com uma bateira (embarcação que percorria o rio), com capacidade para 60 sacos, cada um pesando 50 quilos. A carga era levada do sítio para o armazém que o sr.Roderico tinha na cidade.
Após colheita do arroz, começava-se a capinar a banana cuja produção iniciava-se depois de um ano da plantação. Toda a semana, tínhamos 1500 caixas de banana para entregar aos 5 caminhões que as transportavam para São Paulo.O produto tinha uma entrega certa, alcançando bom preço.