Bairros em que morei

Wilma Pedrão (*)

Nasci no bairro de Mirandópolis, sub-distrito da Saúde. Meu avô trabalhava para um senhor italiano, de nome Cantarella, proprietário de tudo o que existia do Jabaquara até a Vila Mariana.
Todas as terras dos referidos bairros pertenciam a esse senhor a quem meu avô ajudava na administração de tudo. Quando digo tudo, digo mato.
Era só matagal. No início da década de 20, começaram os loteamentos das terras do italiano, por exigência dos seus futuros herdeiros. Como seu fiel escudeiro, meu avô recebeu três lotes de presente. Todos os terrenos divididos tinham a mesma metragem, ou seja, 10x30, as ruas que não tinham nome passaram a tê-lo, sendo que o meu bairro adotou para as suas ruas, o nome das flores, até hoje uma de suas características.
Os terrenos doados localizavam-se na rua dos Narcisos. Em um deles, foi iniciada a construção de uma casa sob muito sacrifício, em regime de mutirão, quando só se trabalhava aos sábados e domingos. Finalmente, em 1924, a casa ficou pronta e habitável.
Era um sobrado grande com 3 quartos, sala e banheiro, na parte superior. Na parte inferior, construíram 2 cozinhas, 2 salas e 1 quarto.
O terreno tinha 30 metros de comprimento. Assim sendo, fizeram a construção nos fundos, pois tinham o sonho de construírem uma nova casa na frente. Sonho muito sonhado, e jamais concretizado. Nessa casa e nesse bairro que, na época, era periferia, foi que vovó terminou de criar os filhos e onde faleceu seu filho mais velho, meu tio Iço. Quase todos os outros filhos e filhas saíram de lá, casados e casadas. Quer dizer, realizaram seus casamentos na rua dos Narcisos.
Eta casinha que tem história! Nela nasceram quase todos os netos da minha avó Coti, quase todos pelas mãos da parteira do bairro, Dona Júlia.
Em 1934, nasci eu. Nessa época, lá não havia ainda luz elétrica, nem água encanada. As ruas eram muito esburacadas, e o mato invadia tudo. Brinquei, brincamos, eu, meus irmãos, primos e toda a molecada da vizinhança, com barro, bichos e muita mamona, tirada dos terrenos baldios,que eram muitos. A rua dos Narcisos começa na rua Luiz Góes, e termina na rua das Orchideas. Os nomes são tão antigos que ainda se escrevia Orquídeas com ch.
Na época, existiam somente 5 casas na rua das Orchideas. Em 1981, quando colocamos a casa à venda, por ocasião do falecimento de mamãe, choveram compradores, pois não existiam mais terrenos vagos na região. Tornou-se um bairro estritamente residencial e muito bonito. Como de família muito católica, sempre conheci a Igreja de Nossa Senhora da Saúde que ficava muito longe, na Vila Mariana. Perto daquela igreja, existia o centro de saúde.
A única escola pública da região ficava também muito longe. Era o Grupo Escolar Marechal Floriano. De alguns anos para cá, porém, temos o Colégio Rui Bloem, do Estado. Foi um dos primeiros bairros paulistanos a ter uma unidade do Colégio Objetivo.
Até a década de 50, não existia iluminação nas ruas, que foi inaugurada somente no 4o.Centenário de São Paulo. Temos também a famosa igreja de Santa Rita de Cássia.
Na minha infância, como transporte, só existia o bonde, e poucas linhas de ônibus. Apenas na rua Domingos de Moraes, alguns quarteirões distante de casa, podíamos encontrar condução. Hoje Mirandópolis dispõe de duas estações de metro: a da Praça da Árvore e da Santa Cruz. O comércio, já muito ativo de uns anos para cá, ganhou ainda maior dinamismo, com o Shopping Santa Cruz.
Após meu casamento, fui residir na rua das Camélias, rua Flor do Ipê, rua Flor da Tília, para voltar para a rua dos Narcisos, mas agora em casa alugada. Posso dizer que dei voltas em todo um jardim, pois passei em seguida ainda pela rua dos Miosótis. Depois de desquitada, mudei-me para o Jardim Aeroporto, bairro situado no final das pistas dos aviões. Residi na rua dos Martírios, sem calçamento, sem iluminação. E adorei. Voltei a caçar pirilampos. Nostalgia da infância.
Os moradores da rua, em sua maioria, eram trabalhadores das companhias de aviação. Lá fiquei por cerca de três anos, mas pouco conheci do bairro, já que passava meus dias trabalhando muito.
Alojei-me em seguida no bairro da Aclimação, que também pouco conheci. E voltei para meu querido Mirandópolis. Comprei apartamento num dos primeiros prédios lá construídos. E, com meu novo casamento em 1981, rumei para o Itaim-Bibi Não foi uma experiência que, particularmente, me tenha agradado. Muitos acham o Itaim-Bibi bom e chic. Para mim, não passou de um porre. Muito movimento, trânsito horrível, preços altos demais. Bairro de classe média alta, frio e sem atrativos.

*A autora prepara para publicação o livro Sem a faca e o queijo.Aqui, os dois capítulos iniciais

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