Sem a faca e o queijo

-Tomara que eu quebre uma perna!
Esse pensamento sempre me vinha a cabeça quando via minha irmã Wanda, ou meus dois irmãos, Walter e Francisco, atraírem os maiores cuidados paternos porque estavam doentes, enquanto eu parecia respirar saúde por todos os poros. Nem sempre fôra assim. Passei meus primeiros meses entre a vida e a morte, com papai e mamãe desdobrando-se para salvar-me. Extremamente religiosa, mamãe fez uma promessa, durante uma das minhas crises. Subir o monte Serrate a pé, descalça, levando-me no colo. Sobrevivi, bem se vê, e mamãe cumpriu a promessa. Nasci onze meses após o casamento dos meus pais. Muito pobres ambos, moravam numa pensão em Santos, mas para parir-me, mamãe alojou-se na casa da minha avò, Vó Coti, no bairro de Mirandópolis, em São Paulo.
Tudo isso, é claro, sei por ouvir contar. Do momento em que tomei consciência das coisas, já me vejo uma menina esbanjando saúde, no meio em que saúde era mercadoria escassa.
Quando eu tinha 17 meses, nasceu meu irmão Walter. Outros dezessete meses passados, e Wanda veio ao mundo. Um ano depois dela, chegou Francisco, o caçula. Quatro filhos em menos de quatro anos, tiveram os meus pais. Eu e meus irmãos crescemos juntos assim.
Crescemos, porém, eu mais saudável, meus irmãos sempre doentes. Cada um com sua doença, e eu sem conseguir ser mais doente do que eles. Vai ver que por isso, eu era birrenta, chorona, chupava dois dedos de uma vez.
Nessas alturas, já tínhamos vindo morar definitivamente na casa de vó Coti. Um dia, todos tivemos, inclusive minha mãe, coqueluche, mas a minha, pobrezinha de mim, foi a mais fraca. Então, todos procuraram ares melhores, indo para casa da tia Linda.
Eu fiquei. Sentia-me completamente desprezada. Não entendia porque eu precisava ficar. Toda a minha mágoa quem agüentou foi vovó e minhas tias solteiras. Eu resmungava, chorava, fazia mil travessuras o tempo inteiro. Eu, a pobre infeliz da coqueluche mais fraca.
Papai trabalhava com meu avô paterno numa adega. Trabalho braçal, duro, mas meu pai não podia aspirar a algo melhor, porque só completara o segundo ano primário.
Embora não faltasse o essencial em casa, vivia-se em apertura, com malabarismo até para manter as refeições diárias. Dois ovos fritos tinham que dar para os quatro filhos, de maneira que minha mãe os dividia em metades iguais. Ela também era obrigada a dividir um litro de leite pelos quatro.
Certa manhã, ao levantar-me, recebi chá para tomar. Vi, porém, minha irmã Wanda tomando leite, e protestei. Também queria. Wanda era a mais fraquinha de nós, centro assim das atenções de todos, mas eu me julguei injustiçada.
Quero leite - pedia chorando - pois Wanda está tomando:
A Wanda é a Wanda, você é você - respondeu minha mãe agressivamente.
Já adulta, entendi perfeitamente a atitude da minha mãe. Sua rispidez não passava de uma cortina para esconder a sua angústia, a sua impotência diante de uma situação que lhe uma impunha uma escolha dolorosa. Minha irmã tinha uma pneumonia por ano, não poderia passar sem o leite.
O incidente, porém, ficou para sempre em minha mente. Nunca mais voltei a pedir leite,e quando me davam espontaneamente, recebia-o como uma esmola, ou resto. Falei com minha mãe várias vezes sobre aquele dia. Ela esquecera o assunto, respondia que eu estava inventando. O momento certamente fôra-lhe triste, servira-se de um mecanismo mental qualquer para alijá-lo da memória. Coitada. Quanto não lhe teria custado aquela opção em termos de sacrifício de amor materno? Era uma alegria quando Durval, meu tio mais velho vinha visitar vovó. Tio Du, como o chamávamos, dispunha de boa situação financeira, bem melhor do que os demais da família. Então ele trazia doces, queijos, frutas, coisas enfim disponíveis para nós só durante as suas visitas, muita raras, por sinal.
Contentamento maior eu só tinha ao ir passar o dia, na casa da minha vó Gueza. Lá eu comia um ovo inteiro, e todo o tipo de frutas, pois vovô João tinha um pomar muito bem cuidado.
Minhas duas tias paternas, Maria Tereza e Céu trabalhavam como domésticas em casas de gente muita rica, e viviam me dando roupas e brinquedos que ganhavam dos seus patrões. Coisas já usadas, mas sempre da melhor qualidade.
Numa daquelas idas à casa de vovó Gueza, ela me levou ao palacete onde trabalhava minha tia, e a menina de quem ela era governante, Maria Tereza Loureiro, mostrou-me o seu armário de brinquedos. O armário estava repleto e, diante dos meus olhos extasiados, lembro-me perfeitamente, ela me falou para escolher qualquer um. Meus olhos logo se fixaram gulosamente numa linda boneca de louça. Intimidada, porém, pela preciosidade do brinquedo, minha opção acabou por recair sobre um humilde bichinho de plástico. Passado muito pouco tempo, no dia do nascimento do primeiro Celso, filho do tio Odilon, irmão de mamãe, tive a agradável surpresa. Maria Tereza mandou-me de presente a boneca tão almejada, minha primeira e única boneca de louça. Junto ganhei um pacote de balas e um vestido à Shirley Temple, a grande sensação da época. Xadrezinho de punhos brancos, o vestido terminava com babados de renda bem fininha. Completava-lhe um broche com a foto de Shirley Temple. Evitei tanto usar o vestido para não desgastá-lo que eu cresci conservando-o quase como novo. Quem, afinal, conseguiu usufruí-lo mais foi minha irmã Wanda.
Aquelas incursões à casa da minha vó Guesa, porém, não eram freqüentes. Eu ia crescendo em Mirandópolis. Na casa, além de vovó Coti e suas três filhas solteiras, Fu, Dada e Caçula, morava ainda o meu tio Afonso, também solteiro. A casa era grande, com três quartos, uma sala e um banheiro na parte de cima, o território de vovó e seus quatro filhos solteiros. Embaixo estava a cozinha, e nós ocupávamos uma área de quarto, sala, cozinha e banheiro no quintal.
Construíra a casa o meu avô, durante a revolução de 1924. Ele trabalhara para um italiano chamado Cantarela, dono de amplas terras na região. Trabalhando na administração de tudo aquilo do italiano - quando digo tudo, digo mato, pois era só matagal - meu avô fez jus a 3 lotes de terra quando Cantarella, por imposição dos seus futuros herdeiros, retalhou as terras, em lotes iguais de 10m30.
Trabalhando em regime de mutirão, só aos sábados e domingos, meu avô conseguiu construir a casa. Fê-la no fundo do terreno de 300 metros quadrados, pois sonhava construir outra casa em frente. Jamais conseguiu esse intento.
Ali, eu nasci em 1934, pela mão de d.Júlia, a parteira do bairro. As ruas de Mirandópolis foram batizadas com os nomes de flores que perduram até hoje. Nossa casa ficava na rua dos Narcisos, com começo na rua Luís Góes e fim na rua das Or chídeas (ainda com ch). Era o único sobrado de todo o bairro.
Não havia nem luz elétrica, nem água encanada. Briquei, brincávamos, eu, meus irmãos, primos e toda a molecada da vizinhança com barro, bichos e muita, muita mamona, dos numerosos terrenos baldios. Apesar das aperturas econômicas da família, vivíamos contentes. Minha alegria só não chegava a ser total por causa da boa saúde.
Aos 7 anos de idade fui matriculada na escola Antoninho da Rocha Marmo. Chamava-se Cidinha minha professora, e não me lembro se cheguei a gostar dela ou não. Antes da Antoninho Rocha Marmo, freqüentamos, eu e meu irmão Walter, uma escolinha perto de casa. Não gostamos, resolver fugir de lá um dia. Não voltamos mais. Inconformada, nossa professora, dona Yole, sugeriu à minha mãe que não nos obrigasse a retornar às aulas, pois éramos muito pequenos. Não voltamos, mas levamos uma memorável surra.
Nesse ínterim meu tio Alonso casou-se e veio residir com sua mulher, tia Olga, em seu quarto de solteiro. A família estava aumentando.
Meu tio era funcionário público estadual, tia Olga trabalhava num laboratório. Ela seguia a religião protestante e esse fato, creio, fez com que o casamento tenha desagradado à família do tio Afonso, católica fervorosa. Entretanto, o relacionamento familiar entre todos parecia bem, pelo menos aos nossos olhos de crianças. Um ano após o casamento de ambos nascia Neuza, minha priminha querida.
Aos domingos, logo às 7 horas da manhã, eu mamãe e Walter íamos à missa na igreja da Saúde. Eu adorava. Só não sei se era pela missa, ou pelos biscoitos que comíamos assim que voltávamos.
Nessa época, comecei a preparar-me para minha primeira comunhão. Ia ao catecismo. Num 8 de dezembro, chegou o grande dia. Caçula fez papelote na véspera. Meus cabelos eram compridos. Ao amanhecer, porém, fui saudada com uma tremenda chuva. Precisei ir de roupa comum até a casa de dona Mariquinha que morava onde depois abriram uma agência do banco Itaú. Todo o bairro era uma lama só. Troquei de roupa na casa da senhora amiga e fui receber a comunhão acompanhada de Caçula. Walter estava doente, impedindo mamãe de ir.
Do que mais gostei na cerimônia foram as meninas vestidas de anjo. Eu sonhava com uma roupa daquelas, na minha cabeça somente as crianças boas poderiam usá-las. Nunca meu pai poderia comprar uma roupa de anjo para mim. Jurei que minha irmã seria anjo de procissão. Cumpri o juramento.


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