Yvonne Haddad Vieira Galvão Nasci e cresci na rua Major Diogo, 239, onde antes era uma casa alta, de porão também alto, e hoje é um pequeno prédio de apartamentos. No Bexiga, o sistema de numeração das casas por metragem (e não de casa a casa, na ordem par-ímpar como era antes), foi adotado antes do que no centro da cidade, mas quando eu era criança, ainda se usava o sistema anterior. Não me lembro, entretanto, do número antigo.Nossa casa era alugada do sr.Vicente Azevedo (não me vem o nome todo) que foi Secretário da Fazenda em São Paulo. Depois, a casa passou para a sua filha, d.Maria Cecília Vicente de Azevedo. Minha família habitava a parte alta da casa. Eram moradores do porão alguns descendentes de escravos da família Vicente de Azevedo, com quem mantínhamos muita amizade. Lembro com intensas saudades de dona Blandina, filha de escravos, que chefiava aquela família. Na homenagem em sua memória prestada por seus filhos, netos e bisnetos, na ocasião da data do seu centenário de nascimento, fomos convidados especiais. Estivemos lá eu, meu marido, Dario e minha irmã, Victória. O prédio erguido no lugar da casa em que nossa família e os familiares de dona Blandina moravam, tem o seu nome. Pelos anos afora, a nossa vizinhança quase não variou, o que me permitiu conhecer, pelo menos de nome, ou de vista, a maioria dos moradores da rua. Praticamente em frente a nossa casa, número 232, morava com sua família o sr.Nicola Infante, dono da fábrica de doces Bela Vista, que funcionava numa construção ao lado, o número 226. Pertencia também ao sr. Nicola Infante, a casa alugada para cortiço e vizinha à sua residência. Em seguida, vinham as três propriedades do sr. Filipe Donângelo, cujo filho, José Donangelo, se não me falha a memória, foi jornalista dos extintos Diários Associados. O sr.Filipe ocupava uma das casas como sua residência, e alugava as duas outras para habitações coletivas. As casas dos números 272 a 296 eram da Cia. Scatamacchia, fabricantes dos famosos Sapatos Scatamacchia. A fábrica, fundada pelos srs. João e Francisco Scatamacchia já estava lá desde muito antes de meu nascimento (iniciara-se em 1913) e seu prédio, que ia dos numeros 282 a 290, aindaestá de pé. Fábrica Scatamacchia, 1922
Estudei no Grupo Escolar Júlio Ribeiro, também do lado par da Major Diogo, ainda funcionando, embora com nome diferente. Outro colégio da época, este do meu lado da rua (no.105), era dirigido por d. Silverinha Adrien, fundadora da Casa do Pequeno Trabalhador, e seu prédio era de propriedade de dona Maria Cândida F.Lima. O Restaurante Capuano, que durante muitos anos foi uma referência do Bixiga, surgiu e viveu por muito tempo na rua Major Diogo. Eu via sempre o seu fundador, o sr. Francisco Capuano, pois o restaurante se localizava a apenas a alguns passos da minha casa, no número 263. O prédio em que hoje está o Teatro Brasileiro de Comédia é o mesmo daqueles tempos. Fucionava ali antigamente uma associação italiana, sempre em festa para receber visitantes vindos da Itália. Fomos lá certa vez , eu e minha irmã Mafalda, mais velha, ver um grupo de marinheiros da tripulação de um navio italiano aportado em Santos. Costumava-se assustar as crianças da rua Major Diogo com a moradora do 353, Sebastiana de Melo Freire, a d.Yayá, que nunca se via. Era louca, diziam. A família a teria confinado, soube depois, dentro da casa por causa de seu comportamento muito avançado para os padrões da época. Havia uma ponte, contavam os mais velhos, no lugar onde seria construído o Viaduto Major Quedinho. Não a conheci, entretanto, pois na minha infância, a Major Diogo não tinha ligação direta com o outro lado do vale, a não ser atravessando os matos e os barrancos. Para chegarmos assim ao chamado Centro Novo, tínhamos que dar uma longa volta. Descíamos a rua Santo Antonio até a atual Praça da Bandeira e, após atravessá-la, subíamos, ou pela ladeira da Memória, ou pela rua Quirino de Andrade, esta de má fama, por causa de suas casas de prostituição. A Ladeira de Memória (hoje, estação Anhangabaú do Metrô) era quase inteira tomada pela íngreme escadaria. No começo da Consolação, havia uma estação de rádio, não me lembro bem se era a Rádio Cosmos, ou América. Para assistir aos seus programas de auditório, não hesitávamos em fazer aquela sacrificada caminhada. Quando eu era criança, não havia praças no Bexiga. Para brincarmos, então, num espaço pouco maior, descíamos o barranco em que começava a rua Major Diogo, atravessávamos uma mataria rala e pegávamos a rua chamada de Saracura Grande (começo da Nove de Julho) chegando ao larguinho que hoje é a Praça 14-Bis. |